Uma Carta de Vincent é uma peça para flauta e violoncelo composta por Tristan Murail. Estreada em 01/02/2018 em Stuttgart (Alemanha), no âmbito do Festival Eclat no Theaterhaus, foi interpretada pelo Ensemble L'Itinéraire. A encomenda partiu do Festival Eclat e do L'Itinéraire, inserindo a obra numa abordagem de criação exigente e contemporânea.
Esta partitura integra o ciclo Portulan, um ciclo de música de câmara em desenvolvimento, concebido em torno de diferentes combinações instrumentais. O título remete para os "portulanos", antigos atlas marítimos destinados ao navegador medieval, que traçavam costas e pontos de referência. Neste espírito, cada peça do ciclo conecta-se a um lugar, uma leitura, uma viagem ou uma experiência estética marcante para o compositor, como tantos pontos de referência sensíveis.
O ponto de partida musical de Uma Carta de Vincent é uma memória ligada às cartas de Vincent Van Gogh dirigidas ao seu irmão Theo. A obra abre com um motivo de quatro notas evocando "Meu caro Theo", fórmula que inicia as cartas. Este germe temático transforma-se ao longo da partitura, misturando-se com outros materiais, e estrutura a escuta por um jogo de metamorfoses e reminiscências.
A escrita valoriza particularmente as trocas de timbre entre flauta e violoncelo, nomeadamente através de harmónicos e trocas rápidas segundo a técnica do soluço. Esta alternância apertada torna-se uma metáfora sonora do toque pictórico, feito de acumulações de pequenas pinceladas de cor. O resultado é uma partitura expressiva e evocativa, ao mesmo tempo íntima e tensa, onde a virtuosidade serve o sentido e a narrativa musical.